Thursday, December 08, 2005

O Arroz doce da tia Doroteia

Era um arroz que já tinha seguidores de todos os cantos da pequena aldeia. O facto da tia Doroteia não revelar a receita a ninguém perpetuara a misteriosa ciência e arte com que aquele arroz era feito. De aparência era mais escuro que o arroz doce normal, pontilhado com canela em pó, que desenhava as iniciais dos comedores e pequenas improvisações de flores e raminhos. A sua textura era a de um doce leitoso, espesso e denso que deixava resíduos nebulosos nos cantos das bocas dos netos cujos sorrisos eram desdentados e os olhares traquinas. Aquele arroz era a extrema-unção dos doentes mais acamados; era provar ou cheirar aquele doce sabor celestial que já a vida não parecia fugir por entre os “ais” lamentosos e os queixumes sofridos. Tal como freira carmelita, Doroteia levava uma pequena malga com o arroz fumegante, alertando (sem qualquer resultado) que não se comesse enquanto tivesse quente, pois faria mal ao estômago e possivelmente cólicas intestinais portentosas. A parte do arroz, só mesmo as histórias da Tia eram bênçãos para os sofredores. Enquanto se comia o divino arroz, fumegante ainda, Doroteia tecia histórias de santos, sempre com moral óbvia e obstinada. Gostava de contar os pormenores dos seus sacrifícios e tristezas, exaltando as sua bondade e o destino certo e infalível que todos tinham: o céu dos arrozes doces. Os doentes olhavam esperançados que os seus sofrimentos tivessem como destino um céu fofo e pastoso, circundado com pós de canela. Ou seja, esperavam o consolo eterno. O que nunca era falado naquelas histórias, nunca mencionado ou circundado, era o pecado mortal da gula…

Clepsidra 2005

6 Comments:

Blogger Ulysses said...

Fiquei mesmo com água na boca. :-)
As coisas tradicionais e simples são as melhores deste mundo.
Um descrição digna de ser bem saboreada. :-)

9:47 AM  
Blogger a das artes said...

Este é um arroz doce com alma, vida, cheiro a canela em cada letra que o descreve. Dá gosto saborear esta literatura.
Chlep chlep
;)

10:49 AM  
Blogger Wlad said...

Se tia Doroteia soubesse
Que ao mundo todo apetece
Saborear tão doce iguaría
Com toda certeza ela usaria
Panela onde o mundo coubesse.
(Wlad)

Gosto de teus textos.

2:22 AM  
Blogger Clepsidra said...

;) Mais um pretendente ao arroz de Doroteia!

4:01 AM  
Blogger Carolina said...

Pois cá vim também meter a minha colher...no arrooooz da tia e no blog da Clipsidra!!!!
Gostei, minha linda!!

1:53 PM  
Blogger Clepsidra said...

:) obrigada!!

11:48 AM  

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